quinta-feira, 7 de junho de 2018

Escravidão e Microbiologia

Preconceito e Microbiologia: uma relação não-microscópica




  A escravidão, também chamada de escravismo, escravagismo e escravatura são a prática social em que um ser humano adquire direitos de propriedade sobre outro denominado por escravo, ao qual é imposta tal condição por meio da força. Tal conceito é constantemente lembrado quando se trata do período de colonização europeia, onde o aumento da mão-de-obra era requerido devido ao crescimento e intensificação das produções.
  Todavia, as condições de vida que tais escravos eram submetidos eram desumanas. Sendo em sua maioria esmagadora indivíduos negros vindos da África, eram trazidos em navios negreiros amontoados nos porões, expostos a todo e qualquer tipo de doença. Trabalhavam de sol-a-sol, recebiam, apenas em alguns casos, trapos velhos de roupas; eram alimentados com os restos de comida de seus senhores e dormiam em senzalas e galpões escuros acorrentados para não fugirem. Quando desobedeciam, apanhavam com instrumentos de tortura e suas feridas expostas dependiam somente do Sistema Imunológico para se regenerar.
  O conjunto destes fatores condicionais obviamente causou diversas doenças a esta população, que, além da ignorância em termos científicos, não tinha artifícios para tratamentos adequados. Doenças como gonorreia, tétano, varíola, sífilis e outras eram comuns no cotidiano desses indivíduos. Todas estas doenças, causadas por microrganismos, não eram tratadas adequadamente e afetavam uma massa grande de escravos, isso quando não os levava a óbito.
  A relação mais simples e óbvia que podemos fazer entre microrganismos patogênicos e a escravidão é justamente o processo de vinda destes escravos para o Brasil através dos navios negreiros. Nos navios negreiros, os negros ficavam meses aprisionados em porões úmidos, com pouca circulação de ar, acorrentados, mal alimentados e as mulheres eram constantemente violentadas sexualmente, o ambiente era sujo e a preocupação com a saúde dos negros era praticamente inexistente. Esse ambiente precário é ótimo para a transmissão de diversas doenças infectocontagiosas. Doenças como a Malária e a Hepatite B chegaram justamente com os navios negreiros transportando pessoas doentes da África para cá.
  O cais do Valongo,uma das maiores regiões de chegada de Africanos escravizados no país e que foi recentemente descoberto no bairro da Saúde, possuía um local de quarentena e um cemitério devido ao alto índice de doentes e mortos nas viagens da África para o Rio de Janeiro. Estima-se que 12,5% dos negros que eram trazidos para cá morriam durante a viagem, esse número se torna ainda maior se contarmos os que morreram pouco tempo depois de chegarem ao Brasil.
  Neste ano faz 130 anos que a escravidão foi oficialmente abolida no Brasil, faz muito pouco tempo, do ponto de vista histórico, que isto ocorreu e ainda podemos sentir seu impacto na sociedade. Dados de 2015 mostram que entre os brasileiros que dependem unicamente do SUS, os negros constituem 80%. Segundo a ONU, a população Negra apresenta os piores indicadores de saúde em comparação aos brancos. Segundo o Ministério da Saúde, entre as mortes por Aids em 2016, 58,7% dos mortos eram negros enquanto que 40,9% eram brancos. Das mulheres gestantes diagnosticadas com sífilis, 59,8% eram negras e 30,6% brancas. Também em 2016, 38,5% das notificações de sífilis adquirida ocorreram entre pessoas brancas e 42,4% em negras. Em 2014, dos 31.064 casos de Hanseníase diagnosticados no país mais de dois terços eram de pessoas negras. Também em 2014, 57,5% das pessoas que foram diagnosticadas com Tuberculose eram negras.
  Os dados apresentados acima são de doenças que podem ser facilmente evitadas ou que possuem tratamento disponível acessível, então porque em todos estes dados nós temos um maior número de negros afetados do que brancos?
  A ocorrência destas doenças e também a morte por parte delas está diretamente relacionada à fatores sociais decorrentes de anos de preconceito e falta de políticas de reparação efetivas. A transmissão de muitas destas doenças está diretamente relacionadas à ambientes de moradia e de trabalho precários ou então da não prevenção durante o sexo. Essas causas podem ser explicadas pela falta de oportunidades para boa parte da população negra e/ou pela exclusão da população negra de ambientes de educação de qualidade, a periferização da população negra faz com que esta não tenha acesso à postos de saúde para realizar o tratamento ou diagnóstico dessas doenças, não tenham acesso a formas de prevenção para estas doenças ou até mesmo que não tenham acesso a informação de qualidade para saber como se prevenir.
  Portanto, mesmo que tenhamos feito avanços no que se refere à políticas de reparação voltadas para a população negra, ainda há muito o que ser feito e os dados de diversos indicadores da saúde são apenas algumas provas disso.

Por Grupo 2.

Nenhum comentário:

Postar um comentário